O adeus do Mago Iniesta

Já namorei muito nessa vida. E não apenas com mulheres. Talvez o namoro mais longo – seria um casamento? – durou doze anos. E foi com o futebol. Tudo bem, explico melhor: me apaixonei pelo futebol de Andrés Iniesta.

O futebolista espanhol, nascido em Fuentealbilla, decidiu ontem (27), encerrar seu contrato com o clube pelo qual jogou por 22 anos, o Barcelona. Essa notícia foi dada pelo próprio jogador, em entrevista coletiva, acompanhada pelos familiares e por seus companheiros de time. As palavras saíram na mesma proporção que as lágrimas.

Confesso que também chorei. Bem sei que ele ainda vai jogar por algum clube, provavelmente fora da Europa, antes de pendurar as chuteiras definitivamente. No entanto, sentirei saudades de namorar seu futebol. Escrevo este texto, sabendo que você nunca vai lê-lo, para guardar eternamente a saudade – sentimento nobre.

Como foi bom namorar suas jogadas marotas, típicas de um garotão, cheio de cabelos, ainda com a camisa 24, naquela UEFA Champions League (UCL) de 2005-06. Você ainda não era a estrela da companhia, que tinha Ronaldinho Gaúcho, Eto’o, Deco e companhia limitada, mas quando entrava fazia estragos nos marcadores.

Neste mesmo ano, na Copa do Mundo da Alemanha, você nem sonhava usar a camisa 6 da La Fúria. Era reserva de luxo. Dois anos depois, já era titular absoluto, meia dúzia às costas e parceria intelectual com seu amigo de Barcelona, Xavi. Nesse período, colaborou com a campanha do primeiro título da Eurocopa da sua seleção. Adeus, raça de La Fúria. Bem-vinda, técnica de La Roja.

Na temporada 2008-2009, sob o comando de Pep Guardiola, venceu uma nova UCL com o Barcelona, equipe que ficou marcada na história do futebol como uma das mais técnicas. Merecido.

Se Pep Guardiola era a mente brilhante atrás do estilo de jogo tiki-taka, quem o implementou perfeitamente foi Iniesta, bem como Xavi. Delícia era ver a bola, de pé em pé, sem chutão, sem carrinho, sem a bundinha no chão. Era o carrossel holandês de 74 transfigurado nos pés e na cabeça de Iniesta.

Quanta classe, Sr. Andrés. Você jogava por música. Ambidestro, polivalente, técnico, marcador, pensador, genial. Os críticos insistiam em compará-lo com Xavi. Não pode ser. Os dois se completa(va)m. Ambos tinham elevado QI de futebol, só que Iniesta era mais atacante, mais agudo, sem perder a elegância, o passe final, o drible e o gol.

Aaaah, lembrei daquele gol importante na final da Copa do Mundo de 2010, contra a Holanda, na África do Sul, durante a prorrogação, cara a cara com o goleirão. Você não me decepcionaria. Eu sei. Sua bomba certeira de pé direito abraçou as redes e seu uniforme voou longe na comemoração. Dani Jarque nunca lhe esquecerá onde quer que esteja.

Oito anos se passaram, você careca e grisalho, o corpo não responde o que mandam o coração e a cabeça. Vida que segue. Temos um prazo de validade na vida. E no esporte idem. Sei o quanto você é lúcido e educado. Você é um gentleman. Você personifica a expressão fair play. Você é o esporte, o futebol. Você é o Mago.

Texto: Leonardo Gusmão

 

Anúncios

Aquela água toda (João Anzanello Carrascoza) – Alfaguara

“A mãe o chamou, e o irmão, e anunciou de uma vez, como se natural: iam à praia de novo, igualzinho ao ano anterior, a mesma cidade, mas um apartamento maior, que o pai já alugara. Era uma notícia inesperada. E ao ouvi-la ele se viu, no ato, num instante azul-azul, os pés na areia fervente, o rumar da arrebentação ao longe, aquela água toda nos olhos, o menino no mar, outra vez, reencontrando-se, como quem pega uma concha na memória”.

É com mar nos olhos e fragmentos translúcidos de vida registrados em um alegre momento fugaz que se inicia a primeira trama do livro de contos Aquela Água Toda, do escritor João Anzanello Carrascoza.

20180423_200118.jpg

Enter a caption

São onze textos curtos que abordam, essencialmente, dilemas, dramas e tudo o que cerca a vida vivida no ambiente familiar. Temas “casuais” são postos à tona de maneira poética e sincera, sem rodeios, apenas com a sensibilidade de alguém que, provavelmente, transitou pelas circunstâncias, entre as quais o primeiro amor e o primeiro beijo – na bochecha; a vitória histórica do seu time de basquete, ofuscada pela perda do irmão e a viagem mais inesperada de toda a família para conhecer pontos menos turístico da própria cidade onde se vive.

Com refinamento estético e linguístico, embora sem rebuscamentos hiperbólicos, Carrascoza transforma a prosa em uma leitura simples e com muito sentido. Não à toa que, após terminar a leitura, é impossível não ficar com “aquela água toda nos olhos”.

Texto e foto: Leonardo Gusmão

Liberdade

IMG-20180208-WA0004

Foto: Sídio Júnior

Silhuetas

2842062478_839aa21e30_o

Foto: Sídio Júnior

O jovem do Instagram

Assim que acordou, por volta das seis da manhã, pegou o celular que estava no criado mudo, pôs os óculos tortos no rosto e logou o Instagram com tanto, mas tanto prazer que nem reparou no aparelho telefônico em modo avião.

Era segunda-feira, mas bem que poderia ser terça, quarta, quinta, sexta, sábado ou domingo para André. Sua rotina e seu destino eram traçados pela bússola Instagram: se no feed os seguidores começavam a postar fotos da natureza, o jovem tratava de postar o mesmo; se via corpos semi-nus, tinha que providenciar uma foto sensual.

Mas nem tudo era post de auto-ajuda na vida de André. Entre uma foto ostentando seu mais novo brinquedo – uma Ferrari 488 GTB – e um vídeo feito especialmente para o snapgram, no qual André participava de uma festa de arromba, o amor da sua vida lhe acenava na mesa do bar, um morador de rua era espancado na calçada e o governo derrubava mais uma árvore.

André não notou o que aconteceu ao seu redor. Seus olhos estavam vidrados no celular. Seu espelho era o Instagram.

14237644_1180674305327444_1444667566198128205_n

Texto: Leonardo Gusmão

Foto: Silvana Amaral

O vento soprou

DSC_7090.JPG

Foto: Leonardo Gusmão

Bruto (Thedy Corrêa) – Belas Letras

“Chame a família/ avise o tio e o avô/ hoje todos vão saber/ que a sua garotinha se casou[…]/ Eu já fui seu namorado/ por isso ela me chamou/ para que eu fosse testemunha dessa história/ que seja linda como um dia foi a nossa/ Com flores na cabeça/ nossos pés descalços/ nossa vida toda/ de paz e amor[…]”.

A sonoridade nos versos não é mera coincidência. As estrofes alinhadas para o refrão também não. Trata-se da letra da canção Paz e Amor, da banda de rock Nenhum de Nós, escrita pelo escritor e músico Thedy Corrêa, e que faz parte do seu livro Bruto.

20171218_111851

Lançado, inicialmente em 2006, pela editora LPM, o livro ganhou nova edição dez anos depois, pela editora Belas Letras. A publicação é um aglomerado de poemas-letras de canção do autor, que mostra versatilidade em versos rimados e ritmados – em sua maioria são as próprias letras de música -, além de poemas com versos mais livres.

O livro ainda conta as histórias das canções da banda liderada por Thedy e explica o processo criativo de muitos poemas, inclusive com anotações do próprio escritor – um prato cheio para quem acredita que as letras de canções são poesia cantada.

Texto e foto: Leonardo Gusmão

Artistas e seus processos criativos (Leonardo Gusmão, Oemeson Moreira, Pedro Duailibe, Rafael Lemos e Sidney Nóbrega)

Esporte Social Clube: O esporte como estratégia de emancipação – Leonardo Gusmão, Oemeson Moreira e Rafael Lemos

Esporte Social Clube – O esporte como estratégia de emancipação foi uma série de reportagens para TV, composta por três episódios, cujo objetivo foi demonstrar o esporte como vetor de mudança social para crianças, jovens e adultos em Salvador, Bahia.

O trabalho, apresentado como TCC, em agosto de 2016, conta com memorial e a série documentada em vídeo. O terceiro e último episódio, com enfoque no projeto social Jogando & Brincando, foi idealizado e registrado pelo jornalista Leonardo Gusmão, filmado por Henrique Pimenta e editado por Márcio Santana e Jorge Medina.

A foto (Alberto Renault) – Objetiva

A fotografia, como arte, técnica e ofício, é o fio condutor do primeiro romance, A foto, do diretor de televisão e cenógrafo Alberto Renault.

fullsizerender

O livro conta a história – na visão (fotográfica e textual) de um casal de namorados (fotógrafos) – de dois modelos: LP, carioca, com estilo bossa-nova-anos 60 e que cultua sua imagem como um troféu –  afinal, é o seu sustento; e Tê, a linda loura modelo, tatuada, anorexa e apaixonada por LP.

As vidas de LP e Tê mudam drasticamente. O garotão carioca envolve-se com diretores de fotografia, modelos magérrimas e até com Tia Marta, mãe do seu melhor amigo, Jiu-Jítsu. Tê ganha as passarelas de Tóquio, envolve-se numa relação com mais três japoneses (2 homens e uma mulher), torna-se famosa, mas continua triste e se drogando.

O mundo da fama e das celebridades, inundado por drogas sintéticas, baladas e frivolidade está registrado nas páginas da obra de Renault. Como uma foto polaroide, instantânea, o autor consegue prender a atenção do leitor num enredo notadamente fotográfico.

Texto e foto: Leonardo Gusmão